Trump, Netanyahu e Khamenei: sintomas de um colapso global

Trump, Netanyahu e Khamenei: sintomas de um colapso global
De um lado, Trump, o "grande negociador" e seus fracassos, do outro, Netanyahu atolado em escândalos, enfrentando uma insurgência cívica em Israel e disposto a tudo para preservar seu poder. No centro do palco, Khamenei, símbolo de um regime fossilizado, uma autocracia religiosa, em queda de legitimidade e divorciado de sua juventude/Freepik
Publicado em 23/06/2025 às 3:00

José Renato Ferraz da Silveira*

Quando o analista de política internacional britânico Simon Tisdall descreveu Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Ali Khamenei como “três velhos furiosos que podem matar a todos”, ele não usava de metáfora barata. Estava diante de uma realidade nua e crua: três líderes septuagenários (ou mais) atolados em delírios de grandeza, cercados por crises internas, e dispostos a acender a faísca de uma guerra regional com impactos globais. Mais do que um conflito, o que vemos é a falência da política internacional enquanto espaço de racionalidade e mediação.

De um lado, Trump, o “grande negociador” e seus fracassos tanto como mediador individual de conflitos internacionais como de sua própria política econômica interna. Apelidado de TACO, algo como “Trump sempre amarela”.

Veja também: Netanyahu e a guerra infinita: o Irã como inimigo necessário

Do outro, Netanyahu atolado em escândalos, enfrentando uma insurgência cívica em Israel e disposto a tudo para preservar seu poder. Netanyahu tem feito da guerra uma rotina. Desde os anos 1990, anuncia que o Irã está “a meses” de desenvolver uma bomba nuclear, uma ameaça que, como aponta o próprio serviço de inteligência dos EUA, nunca se concretizou.

Sua obsessão pelo Irã é ideológica e estratégica: destruir Teerã seria, em sua visão, eliminar o elo vital do Hezbollah e enfraquecer o Hamas. Mais do que isso, cria uma cortina de fumaça para seu autoritarismo crescente: ataques ao Judiciário, à mídia e à democracia israelense.

Em sua retórica, o Irã não é apenas um inimigo, é uma ameaça “existencial”, palavra que escancara uma lógica necropolítica, como diria Achille Mbembe. Governa-se a partir da morte, da exceção, da destruição do outro como modo de garantir o próprio poder.

No centro do palco, Khamenei, símbolo de um regime fossilizado, uma autocracia religiosa, em queda de legitimidade e divorciado de sua juventude. O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, tem 86 anos e lidera um regime cada vez mais desconectado da sua base social. A repressão às mulheres, aos dissidentes e à juventude fez do regime dos aiatolás uma estrutura política de força bruta, não de fé.

A decisão de manter o enriquecimento de urânio sem necessidade civil imediata foi um erro estratégico, um pretexto entregue de bandeja aos falcões israelenses. A teocracia iraniana já não governa em nome de Deus. Governa em nome da sua sobrevivência, à base de cárcere e chumbo. É um regime autoritário que diz odiar o imperialismo, mas que se espelha em sua face mais brutal.

Veja também: Relatório aponta avanço da liberdade de expressão no Brasil pós-Bolsonaro, mas controvérsias alimentam narrativa de censura

Trump: o idiota útil de Israel

Entre vaidades, delírios e bombas, velhos líderes globais arrastam o mundo para uma crise onde a política cede lugar à guerra performática. Trump prometeu acabar com as guerras. Prometeu ser o pacificador da Ucrânia, o negociador do século no Oriente Médio, o homem dos “great deals”.

Na prática, abandonou o acordo nuclear com o Irã (JCPOA), deu carta branca para Israel atacar alvos iranianos e agora teve uma entrada bélica justificada por “ações pontuais”. Com o Congresso dividido e sem apoio formal para declarar guerra, resta-lhe o expediente do ataque aéreo: lançar a bomba penetrante capaz de destruir instalações subterrâneas iranianas – ação militar que só os EUA são tecnicamente capazes de executar hoje.

Mas Trump não lidera. Ele performa. Atua como “idiota útil” de Tel Aviv, manipulado por Netanyahu, e movido por vaidades narcisistas. Um cachorro que late muito e recua quando a treta começa, como na guerra tarifária com a China ou nos impasses diplomáticos com a Europa. O problema é que, desta vez, o cão que só ladra está mordendo. E essa mordida custará caro para o mundo.

Repetição trágica

Assistimos, ao vivo, à repetição trágica de 2003. Os EUA sabem que o Irã não possui bomba nuclear. Assim como sabiam que o Iraque de Saddam Hussein não possuía armas de destruição em massa. A narrativa é idêntica.

Os meios, os mesmos. E o resultado, se ocorrer a invasão, será semelhante: destruição, caos e mais radicalização. Como lembra Simon Tisdall, “esse novo conflito não é sobre segurança internacional. É sobre insegurança emocional. É sobre velhos ressentidos que se recusam a deixar o poder, mesmo que isso custe a vida de milhares”.

O trumpismo rachou o Partido Republicano. De um lado, os republicanos saudosos da “liderança global dos EUA”, à la Bush. Do outro, os isolacionistas de “America First”, como Tucker Carlson e Steve Bannon, que rejeitam qualquer gasto militar no exterior. O vice-presidente J.D. Vance, figura-chave desse novo trumpismo, se encontra no epicentro da contradição: entre o trumpismo belicista e o trumpismo antimilitarista.

Leia também: Joseph Nye, pai do soft power, morre aos 87 e deixa alerta sobre os danos de Trump à influência global dos EUA

Trump, Netanyahu e Khamenei são sintomas de um colapso mais profundo. O colapso do Estado racional, do multilateralismo funcional, da diplomacia baseada em regras. Em seu lugar, ascende o Estado performático, onde a vaidade substitui tratados internacionais. 2025 é o ano mais instável da ordem internacional desde a Segunda Guerra Mundial.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

Mais análises de José Renato Ferraz da Silveira:

Gaza: quando a morte é negócio, a paz é prejuízo

Argentina entre o ajuste fiscal e a pobreza: o futuro incerto do governo Milei

Trump, Zelensky e as lições do passado: um jogo de poder à beira do caos…

SÃO PAULO WEATHER