O que (quase) ninguém está fazendo com IA na advocacia – e por que isso importa agora

Paulo Silvestre de Oliveira Junior*

O futuro não vai esperar por escritórios que confundirem velocidade com direção. A corrida pela IA já começou, mas poucos entenderam que essa não é uma competição de ferramentas, e sim de “modelos mentais”. A tecnologia é só o gatilho. A transformação é cultural, estrutural e estratégica.
Enquanto muitos falam sobre inovação, poucos perceberam que estão apenas digitalizando o “óbvio”. A Inteligência Artificial Generativa entrou na pauta dos escritórios, mas será que ela realmente entrou na estratégia? Em um cenário onde a tecnologia avança em velocidade exponencial, a pergunta mais importante não é se você está usando IA, mas se está fazendo isso com propósito, estrutura e visão.
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Hoje, quase tudo que se chama de “inovação com IA” na advocacia está preso ao básico. Resumos automáticos de jurisprudência, correções gramaticais, rascunhos de petições e buscas em bases públicas viraram o novo mínimo esperado. Concorda? São práticas úteis, mas que já não impressionam. Se a sua transformação digital parou por aí, você está apenas acompanhando o movimento – não liderando.
Estamos diante de uma transformação irreversível. Aqueles que ainda enxergam a IA como um recurso periférico seguirão resolvendo questões do passado. Já os que a incorporam como parte da estratégia organizacional estão moldando o futuro.
Essa é a diferença entre usar IA e pensar com IA. E é exatamente por isso que desenvolvi o Generative AI-Centric Law Firm Model – um guia que não nasceu da teoria, mas da experiência prática de dezenas de projetos, inclusive aquele que foi o primeiro da América Latina em parceria com a Microsoft.
Essa imagem estrutura visualmente os 4 núcleos estratégicos (Client Service, Legal Services, Risk Analysis e Knowledge Management), articulados por uma governança de dados, permitindo retroalimentação constante e decisões orientadas por evidência.
Esse framework rompe com a lógica de iniciativas isoladas. Ele organiza, conecta e sustenta a aplicação da IA como motor estratégico – transformando dados em conhecimento, conhecimento em decisões e decisões em valor tangível para o negócio.
IA não é um projeto de TI
Uma das armadilhas mais comuns – e perigosas – é tratar IA como uma pauta técnica. Quando a única conversa sobre IA acontece entre profissionais de tecnologia, é sinal de que algo essencial foi ignorado.
A IA não é um projeto de TI. Ela é um movimento estratégico, com implicações que atravessam a governança, a cultura, a experiência do cliente e os modelos de precificação. A tecnologia, por si só, não transforma escritórios. O que gera transformação é a capacidade de aplicar essa tecnologia de forma inteligente e estruturada, alinhada ao negócio.
Como costumo dizer: “Não se trata do que a IA pode fazer. Trata-se do que seu escritório é capaz de fazer com ela”.
Satya Nadella, CEO da Microsoft, disse algo que vai de encontro com a realidade da advocacia: “Toda empresa será uma empresa de software. Mas aquelas que não extraírem inteligência dos dados ficarão para trás”.
Sem clareza estratégica, IA vira apenas mais um software. E sem integração organizacional, ela se torna um custo a mais, e não um ativo diferencial.
Nos últimos meses, ouvi gestores dizerem com orgulho que já usam IA porque automatizaram resumos de jurisprudência. Outros porque implementaram um copiloto de escrita jurídica. Há valor nisso? Sem dúvida. Mas não é mais um diferencial. É o básico.
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Entre as diversas aplicações da IA Generativa no Direito, observa-se uma base composta por iniciativas já amplamente difundidas, um nível intermediário em que poucos exploram aplicações analíticas e preditivas, e um topo reservado às iniciativas verdadeiramente transformadoras – aquelas que exigem estrutura, dados e, sobretudo, coragem para serem implementadas.
Estamos avançando para uma nova era, a dos agentes e multiagentes de IA. Sistemas que não apenas executam, mas interagem, aprendem, recomendam e antecipam. Agentes que leem contratos, cruzam decisões, simulam riscos, atualizam relatórios e sugerem caminhos com base em aprendizado contínuo. E, quando bem integrados, operam em sinergia – como uma inteligência coletiva agindo em tempo real.
Um único agente é como um advogado júnior com memória quase infinita. Vários agentes integrados são como um time de especialistas trocando insights simultaneamente. O escritório passa a operar com uma camada invisível de inteligência que potencializa cada decisão tomada.
O futuro da advocacia de alta performance passa por esses agentes. Eles não substituirão os advogados, mas certamente reorganizarão os escritórios ao redor daqueles que sabem ativá-los com inteligência.
Tudo isso pode parecer visionário demais para alguns, mas já é realidade para quem estruturou sua operação com base em dados e estratégia. A seguir, compartilho 6 cases que demonstram como a IA Generativa, quando bem aplicada, deixa de ser promessa e passa a ser diferencial competitivo concreto.
1. Atendimento ao cliente
Em escritórios com grande volume de relacionamento, a IA já tem sido usada para transformar o modo como o cliente é atendido. Em um dos casos, o cruzamento de dados do CRM com eventos de negócio passou a antecipar dúvidas recorrentes, orientando proativamente o cliente sem sobrecarregar o time. A percepção de valor aumenta quando o cliente sente que está sendo compreendido – mesmo antes de pedir.
2. Otimização fiscal
Em estruturas com atuação tributária, agentes de IA treinados para cruzar normativos, decisões e padrões internos têm permitido identificar oportunidades que, antes, exigiam um esforço quase manual e contínuo. Não se trata apenas de ganho de tempo, mas de amplitude analítica. A IA, nesse caso, ajuda o escritório a enxergar onde antes só havia um grande conjunto de dados.
3. Simulações de cenários em M&A
O uso de múltiplos agentes para analisar contratos e prever efeitos jurídicos vem se consolidando como prática em negociações mais complexas. Ao simular diferentes arranjos contratuais com base em jurisprudência e benchmarks, a IA entrega clareza estratégica – e reduz a margem para decisões baseadas exclusivamente no feeling.
4. Precificação
Modelos mais sofisticados de precificação estão se apoiando na IA para considerar variáveis como tipo de cliente, histórico de resultado, esforço projetado e sensibilidade a risco. Não se trata de automatizar o preço. Trata-se de tornar a proposta mais inteligente e mais alinhada ao valor percebido – tanto pelo cliente quanto pelo escritório.
5. Mapeamento de riscos contratuais
Monitorar riscos antes que eles se tornem problemas é algo que a IA tem permitido com mais consistência. Em operações que lidam com contratos e contencioso de forma integrada, agentes conseguem apontar tendências, recorrências e alertas de forma autônoma, permitindo que o time atue com mais foco e menos urgência.
6. Onboarding
A entrada de novos profissionais em estruturas mais complexas exige mais do que um manual. Em alguns casos, agentes de IA têm sido treinados com cultura interna, fluxos operacionais e boas práticas. O resultado é um onboarding mais fluido, com menos dependência de pares e mais autonomia desde os primeiros dias. O conhecimento institucional deixa de estar só na cabeça dos veteranos.
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Além dos cases, a imagem mostra como diferentes áreas do escritório podem incorporar a IA, conectando estratégia, operação e resultado. Esses são alguns dos projetos que tive a oportunidade de acompanhar de perto.
O que está em jogo não é eficiência. É relevância
A adoção estratégica da IA Generativa vai dividir o mercado em dois grupos. Os que usam a tecnologia para reforçar modelos antigos e os que a usam para criar novos caminhos.
De um lado, escritórios que insistem em vender tempo. Do outro, escritórios que entregam transparência, velocidade e inteligência – e por isso podem precificar por valor.
A IA não vai substituir advogados. Vai amplificar quem souber usá-la e expor quem ignorar seu potencial. No fim, o diferencial competitivo não estará na tecnologia em si, mas na capacidade de integrá-la ao negócio com estratégia, consistência e visão. A decisão continua – como sempre – nas mãos da liderança. A diferença é que agora o tempo para decidir ficou muito mais curto. E o espaço para hesitação, ainda menor.
Essa transformação está acontecendo diante dos nossos olhos. Está nos fluxos, nos dados, nas perguntas que os clientes fazem e nas respostas que já não podem mais vir do improviso. Ainda assim, há quem insista em não enxergar. Talvez por conveniência. Talvez por medo. Ou, quem sabe, porque é mais confortável acreditar que o amanhã será apenas uma versão levemente atualizada do hoje.
Se me perguntarem como vejo a advocacia daqui a 5 anos, minha resposta será direta. O que vejo está escancarado para quem acompanha com seriedade tudo que está acontecendo ao nosso redor. Não acredito em disrupções teatrais. Acredito em mudanças estruturais que começam pequenas, mas ganham força, intencionalidade e desconforto bem administrado.
A IA Generativa, em 2030, será invisível. E por isso mesmo, indispensável. Não será tema de painel, nem diferencial de marketing. Ela estará presente no raciocínio, nas análises, nas decisões e nas propostas. O cliente não vai perguntar se você usa IA. Vai perceber que você entende melhor o problema dele, que responde com mais profundidade e que propõe com mais segurança.
O modelo piramidal, com sua base volumosa e lógica de empilhamento de tarefas, dará lugar a um modelo mais enxuto e inteligente. O formato em diamante vai se tornar o novo padrão. Profissionais altamente capacitados no centro. Lideranças estratégicas no topo. E agentes inteligentes nas laterais, apoiando com precisão, sem ocupar espaço.
A IA será o copiloto que devolve ao advogado algo que foi sendo retirado ao longo das últimas décadas: O TEMPO. Tempo para pensar, para antecipar, para personalizar a entrega e para fazer o que só o humano consegue fazer – interpretar o não dito, sentir o contexto e escolher o tom.
Não é a IA que ameaça o advogado. É a insistência em atuar de forma indiferente ao que está mudando. É a negação do contexto. E, acima de tudo, é a falta de vontade de rever o que já não entrega mais valor.
E aqui entra algo que talvez não se fale com tanta frequência, essa transformação precisa ser conduzida com responsabilidade. Não se trata de correr atrás de modismos. Trata-se de garantir que a tecnologia amplifique o que temos de melhor. Que a ética seja reforçada, não negligenciada. Que a advocacia, no fim do dia, continue sendo sobre confiança – só que agora com mais inteligência por trás.
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A minha preocupação nasce do que vejo diariamente, talento sendo desperdiçado em tarefas que a tecnologia já poderia ter resolvido. Vejo escritórios incríveis gastando energia para manter estruturas que não conversam mais com o mundo real. E vejo clientes cada vez mais exigentes, tentando entender por que a advocacia ainda insiste em ignorar os sinais.
Em 2030, os advogados que prosperarem serão os que compreenderam que a tecnologia não é o centro – mas que, sem ela, nada gira com a mesma fluidez. Continuaremos ouvindo, interpretando e decidindo. Só que faremos isso com mais clareza, mais contexto e mais inteligência – de forma ética e estratégica.
*Paulo Silvestre de Oliveira Junior é especialista em desenvolvimento estratégico e inovação no setor jurídico, com mais de 14 anos de experiência em liderar projetos transformadores para departamentos jurídicos e escritórios de advocacia. Graduado em Gestão Estratégica pelo IBTA, possui especializações em Business Innovation e um MBA em Segurança da Informação pela FIAP, além de formação em Inovação Corporativa e Estratégia Digital pelo MIT. É o criador do Generative AI-Centric Law Firm Model, framework pioneiro que orienta a adoção estratégica de IA generativa por escritórios de advocacia e hoje é uma referência global. Atualmente, atua como Diretor de Inovação e Desenvolvimento no Buttini Moraes Advogados e é fundador da Absense Tecnologia e da IT Legal Experts – Innovation & Technology. Autor de “Direito em Transformação – Estratégia e Inovação para Advogados”, Paulo é reconhecido por integrar tecnologia e estratégia para impulsionar a inovação no Direito, inspirando escritórios ao redor do mundo a transformar suas operações.