100 dias de Trump: caos estratégico ou início do declínio da liderança global dos EUA?

100 dias de Trump: caos estratégico ou início do declínio da liderança global dos EUA?
Os 100 primeiros dias de seu governo é marcado por polêmicas, confusões, diplomacia do bully e uma série de recuos atrapalhados/Open IA
Publicado em 02/05/2025 às 9:25

José Renato Ferraz da Silveira e Carolina Gonçalves Pedron*

“O caos é uma ordem por decifrar” – José Saramago. A frase do escritor português José Saramago revela “o que nos parece caótico agora pode não parecer depois de algum tempo, quando pudermos olhar para os desdobramentos daquela situação”. Essa frase resume muito bem a situação atual que se encontra os Estados Unidos nos primeiros meses de governo de Donald Trump, na qual tem realizado movimentações que podem vir a modificar completamente o cenário da ordem internacional global.

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O presidente Donald Trump retornou – com triunfo – ao Salão Oval e os 100 primeiros dias de seu governo é marcado por polêmicas, confusões, diplomacia do bully e uma série de recuos atrapalhados. Tal performance desastrosa já se refletiu na opinião pública estadunidense.

Uma pesquisa do Instituto Ipsos, do jornal “Washington Post” e da rede de TV ABC News, divulgada no domingo (27) mostra que Donald Trump é o “presidente dos Estados Unidos com a pior aprovação aos 100 dias de mandato em 80 anos” Aprovam Trump (39%); Desaprovam (55%); Não responderam (5%). Vale destacar que os números não somam 100% por conta de arredondamentos.

A pesquisa foi feita com 2464 adultos, entre 18 e 22 de abril de 2025, em inglês e espanhol. Uma parcela de 30% dos entrevistados se declarou democrata, 30% republicano e 29% independente. Os resultados têm uma margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Outro dado relevante é que 73% disseram que a economia dos Estados Unidos está em má situação, 53% afirmaram que piorou desde que Trump tomou posse e 41% disseram que as suas finanças pessoais pioraram.

Somado a isso, a edição da revista inglesa The Economist denuncia a concentração de poder no Executivo, o afastamento de qualificado corpo técnico, o ataque às universidades e a imprensa e o abandono de alianças históricas em nome de um “nacionalismo bruto”.

A revista expõe que o governo Trump não é apenas um governo autoritário, na realidade, está demolindo sistematicamente as bases democráticas dos Estados Unidos. Isto pois o presidente tem adotado medidas e ações abruptas que estão instaurando uma imagem mais isolacionista do país, colocando em jogo questões de confiança sobre a nação e trazendo à tona preocupações sobre suas relações comerciais. Além disso, alianças antigas e importantes para sua diplomacia estão sendo quebradas, influenciando diretamente nos seus acordos e vinculações.

As políticas econômicas do presidente, em especial, têm sido um dos maiores alvos de críticas, não só de analistas internacionais em razão da guerra tarifária e o agravamento no PIB, como também da própria população, que por conta da grande mudança no aumento de preços do mercado gerou preocupação nos consumidores americanos.

Outro ponto agravante do novo governo de Trump é a sua ignorância (desprezo) contra os valores democráticos. Os Estados Unidos por muito tempo, foram uma referência em fóruns e organizações voltadas para a defesa dos direitos humanos, não só acolhendo causas, como também implantando-as e servindo de exemplo a ser seguido por outras nações.

Esses ataques ao direito civil os fazem perder seu prestígio e credibilidade, demonstrando o possível decaimento de sua democracia mundo afora e também reforçando uma erosão interna na sociedade, ferindo a diversidade e os valores básicos como de inclusão.

Além desses fatores, algumas questões são ainda mais preocupantes. O país que é visto como uma das lideranças em pesquisa, desenvolvimento e criação, que sustenta sua própria hegemonia pelo pilar de conhecimento e multiplicidade intelectual, agora passa por uma degradação simbólica. As universidades que antes eram vistas como centros necessários para firmar a imagem de hegemonia dos Estados Unidos, agora são foco de cortes, doutrinação e forte repressão.

Essa circunstância afeta a atração de outros estudiosos estrangeiros para contribuir ainda mais para a qualificação americana, não só pelo temor da futura ameaça ao movimento acadêmico, como também pela novas políticas migratórias totalmente restritivas de Trump.

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O país deixa de ser um lugar de “abrigo” e “refúgio seguro” para imigrantes e se torna um lugar perigoso para o recomeço de novas histórias. Uma imagem de nação que era feita baseada em pluralidades sociais, culturais e identitárias agora se afunila em um lugar isolado, e em retrocesso jamais visto antes.

Em suma, a incerteza e insegurança são os sentimentos que afligem não só os indivíduos norte-americanos como também a sociedade global. As dificuldades de compreensão das novas ações de Donald Trump trazem à tona uma onda de antiamericanismo no globo, e ao mesmo tempo, aflora sentimentos nacionalistas em outras potências e países, até mesmo em seus próprios vizinhos.
O que podemos constatar é o declínio cada vez mais acentuado dos Estados Unidos e a nova ordem mundial em transição.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2). Carolina Gonçalves Pedron é graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). É membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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