Mercados globais ficam em alerta com retaliação da China a tarifas de Trump – Nasdaq entra em Bear Market

Mercados globais ficam em alerta com retaliação da China a tarifas de Trump – Nasdaq entra em Bear Market
A retaliação chinesa atinge em cheio setores estratégicos dos EUA, especialmente pela ameaça de bloqueio à exportação de terras raras — elementos fundamentais para a indústria de tecnologia e defesa/Freepik
Publicado em 04/04/2025 às 15:00

Da redação de LexLegal

A escalada da guerra comercial entre Estados Unidos e China voltou a provocar um terremoto nos mercados financeiros globais. Com a retaliação chinesa aos novos impostos anunciados por Donald Trump, bolsas de valores despencaram, os índices de volatilidade dispararam e investidores passaram a temer uma recessão global.

Nesta sexta-feira (4), a China reagiu à ofensiva tarifária imposta pelos Estados Unidos com um pacote de medidas que inclui tarifas de 34% sobre produtos americanosrestrições à exportação de minerais estratégicos, como as terras raras, e proibição de venda de insumos de uso civil e militar a 16 empresas dos EUA. A resposta foi interpretada como um contra-ataque direto às sanções impostas pelo presidente norte-americano dois dias antes.

Leia também: Entre hegemonia e colapso: os EUA de Trump e o futuro da ordem internacional

Com isso, os reflexos não demoraram a aparecer. O Nasdaq 100 registrou queda de quase 5%, entrando oficialmente em bear market — jargão usado para descrever quando um índice recua mais de 20% em relação ao seu pico mais recente. O S&P 500 também teve forte baixa, somando sua pior sequência de perdas desde a pandemia de 2020. Na Europa, as bolsas caminharam para uma correção generalizada.

Além disso, os títulos do Tesouro americano com vencimento em 10 anos viram seus rendimentos caírem para 3,93%, enquanto o índice VIX, conhecido como “medidor do medo” de Wall Street, ultrapassou os 45 pontos — patamar associado a momentos de forte incerteza econômica.

As tarifas de Trump e o efeito dominó

O movimento de Trump, que impôs tarifas generalizadas sobre importações de vários países — incluindo 34% sobre produtos chineses20% sobre bens da União Europeia10% sobre produtos brasileiros e 25% sobre veículos importados — vem sendo visto por analistas como a maior ruptura da política comercial norte-americana desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

A retaliação chinesa atinge em cheio setores estratégicos dos EUA, especialmente pela ameaça de bloqueio à exportação de terras raras — elementos fundamentais para a indústria de tecnologia e defesa. Além disso, as restrições a empresas com atuação militar e civil sinalizam um endurecimento nas relações geopolíticas.

“O governo chinês escolheu pontos sensíveis para responder à altura. A exportação de terras raras é vital para a indústria americana de ponta, e isso mostra que Pequim não está disposta a recuar”, avalia o economista Luiz Ribeiro, da BRC Investimentos.

Riscos de recessão e fuga para ativos mais seguros

A instabilidade provocada pela guerra comercial também levou investidores a migrarem para ativos mais conservadores, como ouro e títulos de dívida de baixo risco. Muitos analistas revisaram para baixo as expectativas de crescimento global e passaram a apostar em quatro a cinco cortes nas taxas de juros nos EUA ainda em 2025, em uma tentativa de conter os danos da crise.

Enquanto isso, as ações de grandes empresas de tecnologia, como Apple, Nvidia, Tesla e Alphabet, despencaram. As gigantes chinesas listadas em Nova York, como Alibaba e Baidu, também registraram perdas significativas.

“O mercado de trabalho americano continua forte, mas o medo é que esse conflito tarifário se arraste e acabe afetando o consumo e a confiança do investidor”, diz Jim Baird, estrategista da Plante Moran Financial Advisors.

O papel do Fed e o dilema das taxas

Com a inflação ainda sob controle e o desemprego em níveis historicamente baixos, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) vinha adotando uma postura de cautela. No entanto, com o agravamento da tensão comercial e a ameaça de retração econômica, cresce a pressão para que a autoridade monetária volte a reduzir os juros.

Jerome Powell, presidente do Fed, deve se pronunciar nos próximos dias, e investidores esperam sinais claros sobre o caminho que a instituição tomará diante do novo cenário. Alguns economistas, como Nouriel Roubini, alertam que o pior ainda pode estar por vir.

“Mesmo que se inicie uma negociação, os mercados ainda podem cair mais um pouco antes de estabilizar”, disse Roubini, durante um fórum econômico realizado na Itália.

Investidores em compasso de espera

Com o cenário instável, gestores de fundos retiraram US$ 4,7 bilhões de ações norte-americanas apenas na última semana, segundo levantamento da EPFR Global. O fluxo negativo é o segundo consecutivo e mostra a aversão ao risco que domina o mercado neste início de abril.

Para o Bank of America, a recomendação é clara: não é hora de comprar a queda. Michael Hartnett, estrategista do banco, aconselha investidores a “evitar ativos de risco enquanto Trump mantiver o tom agressivo e protecionista”.

Ainda assim, alguns especialistas acreditam que a turbulência pode abrir oportunidades. Ed Yardeni, da Yardeni Research, disse que vê o momento como uma chance para quem aposta no longo prazo.

Brasil observa com cautela

O governo brasileiro acompanha os desdobramentos com preocupação. A imposição de tarifas sobre produtos brasileiros — mesmo que em patamar inferior aos principais alvos — pode afetar setores importantes da economia nacional, como o agronegócio e a indústria de transformação.

Além disso, cresce no Congresso o apoio ao Projeto de Lei da Reciprocidade Comercial, que autoriza o Brasil a retaliar países que adotem medidas unilaterais contra produtos nacionais. O texto foi aprovado esta semana e aguarda sanção presidencial.

Veja também: China retalia EUA com tarifas de 34% e restrição a minerais raros

O cenário de incerteza global reacende discussões sobre o papel dos EUA como líder do comércio internacional. A estratégia de Trump tem o objetivo de proteger a indústria americana, mas pode gerar efeitos contrários, como inflação, queda no consumo e isolamento diplomático.

A dúvida que paira é se esse movimento representa um novo capítulo na hegemonia norte-americana — agora mais agressiva e unilateral — ou se sinaliza o início do declínio de um modelo global baseado na interdependência comercial.

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SÃO PAULO WEATHER