Trump anuncia tarifa de 10% ao Brasil e reacende protecionismo mundial

Trump anuncia tarifa de 10% ao Brasil e reacende protecionismo mundial
Para o setor automotivo, a tarifa de 25% sobre veículos importados atinge principalmente montadoras com produção no Brasil que exportam modelos específicos aos EUA/Freepik
Publicado em 03/04/2025 às 3:00

Luciano Teixeira – São Paulo

O tarifaço global anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, nesta quarta-feira (2), estremeceu o comércio internacional e colocou o Brasil na linha de frente das tensões comerciais. Nomeado pelo próprio Trump como o “Dia da Libertação”, o decreto impõe uma tarifa de 10% sobre todos os produtos importados do Brasil, incluindo desde commodities até bens industrializados de alta tecnologia.

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O impacto é imediato: os 10 produtos mais exportados pelo Brasil aos Estados Unidos em 2024, entre eles petróleo bruto, ferro, aço, café, celulose e aviões, passarão a pagar mais para entrar no mercado norte-americano. Algumas dessas mercadorias, como óleo bruto e aeronaves, atualmente não pagavam nenhuma tarifa. Agora, entram na mira do novo protecionismo de Trump.

Na transmissão feita diretamente da Casa Branca, o presidente norte-americano justificou as medidas dizendo que os Estados Unidos estariam sendo “roubados” por outros países, que impõem barreiras comerciais aos produtos americanos enquanto se beneficiam do mercado dos EUA. “Essa é uma medida gentil. Vamos tornar a América grande novamente”, disse Trump ao assinar o decreto.

As tarifas variam de acordo com a origem: 20% sobre produtos da União Europeia, 34% sobre a China e 46% sobre o Vietnã. Além disso, Trump também confirmou uma tarifa de 25% sobre todos os veículos importados, em uma clara tentativa de proteger a indústria automotiva local.

Como isso afeta o Brasil?

O Brasil não estava entre os principais alvos esperados, mas acabou sendo incluído no pacote com uma alíquota uniforme de 10% sobre todas as importações. Para o setor exportador brasileiro, isso representa um baque considerável, especialmente para produtos que antes entravam com tarifa zero ou com impostos reduzidos.

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, em 2024 o Brasil exportou aos Estados Unidos aproximadamente US$ 35 bilhões em produtos. Os destaques foram:

  • Óleos brutos de petróleo: US$ 5,8 bi (0% de tarifa)
  • Ferro e aço não ligados: US$ 2,7 bi (7,2%)
  • Café em grão: US$ 1,9 bi (2,5%)
  • Celulose (pastas químicas de madeira): US$ 1,5 bi (3,6%)
  • Aviões e veículos aéreos: US$ 1,4 bi (0%)

Na outra ponta, o Brasil importa dos EUA cerca de US$ 35 bilhões também, com destaque para turbinas, derivados de petróleo, plásticos e químicos. A maioria desses produtos também entra no Brasil com isenção de tarifas ou com alíquotas reduzidas.

Resposta brasileira

A reação do governo brasileiro ainda é de cautela, mas o clima é de pressão. O vice-presidente e ministro da Indústria, Geraldo Alckmin, afirmou que “o Brasil não é problema comercial para os Estados Unidos” e defendeu o diálogo. Nos bastidores, no entanto, cresce o apoio ao Projeto de Lei da Reciprocidade Econômica, em discussão no Senado, que prevê contramedidas automáticas a países que imponham barreiras unilaterais ao Brasil.

A proposta já conta com o apoio de senadores de partidos ideologicamente distintos, como Zequinha Marinho (Podemos/PA), Tereza Cristina (PP/MS) e Jaques Wagner (PT/BA), e foi aprovada por unanimidade na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Com o tarifaço de Trump, o projeto ganha força para ser pautado no plenário da Câmara dos Deputados.

O impacto nas cadeias produtivas

O tarifaço americano tende a provocar uma reação em cadeia no mercado internacional. No caso do Brasil, setores como o agronegócio, a indústria aeronáutica e o setor de siderurgia são os mais expostos. Com os novos custos de exportação, esses segmentos podem perder competitividade frente a países não afetados pelas medidas.

A indústria do aço, por exemplo, já vinha sofrendo com medidas protecionistas desde o governo Biden. Em agosto do ano passado, o Brasil impôs tarifa antidumping contra importados chineses para proteger a produção local. Agora, o jogo se inverte.

Para o setor automotivo, a tarifa de 25% sobre veículos importados atinge principalmente montadoras com produção no Brasil que exportam modelos específicos aos EUA. O risco de queda nas vendas pode pressionar o emprego e os investimentos no setor.

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Analistas políticos e econômicos avaliam que Trump aposta numa estratégia populista de proteção econômica, mirando a reeleição. Internamente, as tarifas são vistas como um gesto à classe trabalhadora industrial americana. Externamente, contudo, a medida pode isolar os EUA e acirrar disputas comerciais.

No caso do Brasil, o desafio é diplomático e estratégico. A relação bilateral está baseada em interesses comerciais, mas não blindada de tensões. A forma como o governo Lula reagir a essa crise poderá influenciar decisivamente a imagem do Brasil como parceiro confiável no mercado internacional.

SÃO PAULO WEATHER