Crise global, populismo e colapso ambiental: o que está prestes a acontecer no mundo em 2025?

Crise global, populismo e colapso ambiental: o que está prestes a acontecer no mundo em 2025?
Não há governo que não se preocupe em formular “políticas de ciência e tecnologia”, mesmo que seja apenas no discurso, como forma de oferecer alguma satisfação à sociedade que, instintivamente, aposta no conhecimento científico para construir seu futuro/Freepik
Publicado em 29/03/2025 às 14:15

José Renato Ferraz da Silveira e Breno Dotta de Brito*

O mito de Cassandra é uma tragédia grega que conta a história de uma profetisa que foi amaldiçoada por Apolo para que ninguém acreditasse em suas previsões, profecias e avisos. A história de Cassandra é permeada por temas como guerra, oráculos, maldições familiares e as trágicas consequências de previsões ignoradas.

Em psicologia e psicanálise, o complexo de Cassandra é quando várias predições, profecias, avisos e coisas do tipo são tomadas como falsas ou desacreditadas veementemente. Na atualidade, o mito de Cassandra está ligado ao problema da credibilidade. O professor Eiiti Sato (Universidade de Brasília) escreveu um belíssimo artigo intitulado “O mito de Cassandra e o problema da credibilidade”.

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No citado artigo, Sato afirma: “Embora na ciência moderna a previsão seja apenas uma dimensão da pesquisa e da observação científica, a preocupação com o uso do conhecimento científico para prever problemas e construir um futuro de prosperidade e de abundância continua tão viva quanto sempre fora com os videntes e perscrutadores do futuro antes da modernidade.

Não há governo que não se preocupe em formular “políticas de ciência e tecnologia”, mesmo que seja apenas no discurso, como forma de oferecer alguma satisfação à sociedade que, instintivamente, aposta no conhecimento científico para construir seu futuro. Ou seja, nenhum governante em nossos dias ousa desafiar abertamente o poder da ciência de colocar o conhecimento a serviço de um futuro de progresso e de prosperidade para as sociedades.

Prever desastres naturais e controlar seus efeitos é apenas uma das preocupações da ciência, na realidade, acredita-se que todo o mundo futuro, todo o modo de vida no futuro, está irreversível e irremediavelmente associado ao avanço do conhecimento.

Não há sociedade ou governo de país considerado “civilizado” que não destine vultosas quantias de recursos em investimentos em áreas do conhecimento consideradas vitais para o futuro dos negócios, para a melhoria da saúde pública, para a redução da pobreza, ou para qualquer outro objetivo considerado socialmente desejável”.

Talvez o professor Sato reescreveria esse trecho ao acompanhar o governo Trump 2.0. Ogoverno de Donald Trump nos Estados Unidos está sendo marcado por uma série de medidas e revogações de leis que já estão prejudicando a pesquisa climática e levarão a danos irreversíveis no meio-ambiente.

“Recentemente, o governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, vetou a participação de cientistas norte-americanos na sessão do Painel Intergovernamental da ONU sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que será realizado na China. Além de impedir a viagem dos pesquisadores, a Casa Branca também solicitou o congelamento da cooperação de seus órgãos científicos com o IPCC, comprometendo o planejamento do próximo ciclo de relatórios, que terá início em 2029” (Matheus Manente).

“É difícil colocar em palavras a extensão do dano que está sendo causado ao empreendimento de pesquisa dos Estados Unidos, que é de valor quase incalculável tanto para a nação em si quanto para o mundo em geral”, diz um editorial da revista Nature, publicado em 25 de fevereiro. O texto faz duras críticas ao governo Trump e cobra apoio da comunidade internacional aos colegas norte-americanos. “Um ataque à ciência e aos cientistas em qualquer lugar é um ataque à ciência e aos cientistas em todo lugar”, diz a publicação britânica.

Algumas predições

Embebidos pelo Mito de Cassandra, algumas predições para 2025:

1) Os americanos vão despertar num país pior do que na atualidade, com mais inflação, mais recessão, mais conflitos externos e uma nova relação dos países europeus e parte considerável do assim chamado Sul Global em relação ao Trump e aos EUA, e, portanto, uma aproximação com a China. Trump causará o colapso da ordem internacional construída e arquitetada pelos Estados Unidos ao fim da II Guerra Mundial (1939-1945). Hoje, os Estados Unidos são os elefantes na loja de cristais finos.

2) A política brasileira continuará polarizada e os partidos do Centrão não vão garantir o apoio que o governo Lula precisa para passar seus projetos, sobretudo os fiscais e tributários. As pesquisas de opinião vão continuar negativas, o que levará o governo a aprofundar o populismo, o que só vai servir, consequentemente, para deteriorar ainda mais o cenário econômico futuro. Ou seja, mais uma farsa dantesca. Toda semelhança no passado é o presente repetindo o ciclo da política brasileira.

3) Enquanto isso, no continente europeu, os tempos de paranoia e conto de fadas ganham força. A Rússia de Putin pode dizer “Ура!”. Depois de anos de conflito, os estadunidenses decidiram que manter a Ucrânia viva sai caro demais e a política de “America First” basicamente está desligando os aparelhos de Kiev. Sem armas, sem dinheiro e sem prestígio, a Ucrânia agora observa seu destino ser decidido em reuniões onde não tem sequer um assento.

4) Enquanto isso, os europeus, que prometeram apoio incondicional, agora procuram trocados debaixo do tapete para continuar enviando suprimentos e se rearmarem. A empolgação inicial virou um suspiro de um velho cansado. E aí entra a Polônia, o alarme histérico de incêndio histérico da Europa.

Os poloneses estão liderando um movimento para rearmar o continente europeu, insistindo que a Rússia é a maior ameaça à existência europeia. Varsóvia acredita firmemente que Moscou está apenas esperando o momento certo para engolir mais territórios, e está armando seu exército e preparando sua população para uma “Guerra Inevitável”.

5) Mas, no fim das contas, os russos assistem a todo esse pânico no continente europeu e admiram como o governo polonês pensa que o Sistema Internacional é um jogo como “War”. Do outro lado do planeta, a China e os EUA estrangulam sua relação com uma guerra de taxações que pode desestabilizar o comércio global. Washington impõe tarifas, Pequim responde na mesma moeda, e as economias vão sentindo os impactos.

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6) O mundo está caminhando para um ano caótico. Se isso fosse uma peça de teatro, provavelmente seria uma tragédia, mas, como estamos falando de política internacional, o enredo sempre encontra espaço para um pouco de comédia involuntária.

Cassandra decaída

“Palavras verdadeiras podem não ser agradáveis
Palavras agradáveis podem não ser verdadeiras”.
Provérbio chinês

*José Renato Ferraz da Silveira, que escreve às terças-feiras no site, é professor Associado IV da Universidade Federal de Santa Maria, lotado no Departamento de Economia e Relações Internacionais. É Graduado em Relações Internacionais pela PUC-SP e em História pela Ulbra. Mestre e Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Colunista do Diário de Santa Maria. Participou por cinco anos do Programa Sala de Debate, da rádio CDN, do Diário de Santa Maria. Contribuições ao jornal O Globo, Sputnik Brasil, Rádio Aparecida, Jornal da Cidade, RTP Portugal. Editor chefe da Revista InterAção – Revista de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) (ISSN 2357- 7975) Qualis A-2. Editor Associado da Scientific Journal Index. Também é líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Breno Dotta de Brito é graduando em Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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