Como a China aposta em inovação e governança para enfrentar a incerteza global

José Renato Ferraz da Silveira*

Em meio a um cenário internacional marcado por incertezas econômicas, tensões geopolíticas e desaceleração no fluxo de investimentos, a China reafirma sua ambição de liderar a próxima fase do crescimento global, apostando em inovação, planejamento estratégico e um modelo próprio de governança.
Essa foi a principal mensagem transmitida pela Reunião Anual de 2025 do Fórum de Desenvolvimento da China, realizada nos dias 23 e 24 de março, em Pequim. Com o tema “Otimizar o potencial de desenvolvimento para o crescimento econômico global estável”, o encontro reuniu autoridades chinesas e estrangeiras, CEOs de multinacionais e especialistas acadêmicos, consolidando-se como uma das principais vitrines do pensamento econômico chinês contemporâneo.
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Uma meta ambiciosa: crescer 5% em 2025
Apesar do cenário global desafiador — com barreiras comerciais, instabilidade financeira, queda nos investimentos e disputas geopolíticas —, o governo chinês mantém uma meta de crescimento de aproximadamente 5% para 2025. E essa projeção, longe de parecer otimismo excessivo, foi considerada realista por líderes e analistas presentes no fórum.
Bill Winters, CEO do Standard Chartered Group, ressaltou o efeito positivo das políticas de estímulo adotadas pelo governo, como o aumento de gastos fiscais, os incentivos ao consumo e as medidas voltadas à estabilização do setor imobiliário, que enfrenta dificuldades desde a crise de grandes incorporadoras nos últimos anos.
Já o renomado economista Jeffrey Sachs, professor da Universidade de Columbia, reforçou que a China segue na vanguarda de setores estratégicos, como inteligência artificial, digitalização e energias renováveis, o que lhe confere fôlego para manter o dinamismo mesmo diante das turbulências internacionais.
Inovação como política de Estado
Mais do que manter taxas de crescimento elevadas, a China quer liderar as tecnologias do futuro. Em 2024, o país subiu para a 11ª posição no Índice Global de Inovação e abriga hoje o maior número de aglomerações tecnológicas entre os 100 principais polos de inovação do mundo.
Apenas nos dois primeiros meses de 2025, a produção industrial chinesa registrou altas em setores de ponta:
Circuitos integrados: +19,6%
Robôs industriais: +27%
Trens de alta velocidade: +64%
Drones civis: +91,5%
Esses dados evidenciam um crescimento quantitativo e sofisticação tecnológica crescente, ancorada em políticas públicas, investimento em ciência e tecnologia e fortalecimento de ecossistemas locais de inovação.
Segundo o jurista e especialista em China, Evandro Menezes de Carvalho, “o êxito chinês reforça a perspectiva de um processo de transformação que combinou a reinterpretação do passado com uma adaptação pragmática à exigência da modernização”. Para ele, o país criou um modelo próprio de governança, em que o socialismo é reinterpretado à luz das particularidades culturais e históricas da China.
“A China passou de um sistema socialista influenciado pela União Soviética para um modelo próprio, no qual o socialismo se adapta às particularidades chinesas. O Partido busca manter comunicação constante com a sociedade, pois isso é essencial para o longo prazo. A cada sessão da Assembleia Popular Nacional, são definidas metas que depois são amplamente divulgadas”, afirma Carvalho.
De importadora de pregos à liderança em inteligência artificial
A velocidade e a escala da transformação chinesa impressionam. Um dado simbólico ajuda a ilustrar essa guinada: em 1947, a China precisava importar até pregos. Hoje, é a segunda maior economia do planeta, lidera em número de patentes registradas e estudos científicos em inteligência artificial, desafiando o domínio tecnológico tradicional do Ocidente.
Mais do que crescimento econômico, a China projeta um novo modelo civilizacional, com base em planejamento de longo prazo, inovação tecnológica, estabilidade política e expansão global. Com investimentos massivos na chamada Nova Rota da Seda e crescente influência em órgãos multilaterais, o país não esconde suas pretensões de moldar o século XXI — não mais como fábrica do mundo, mas como vetor central do conhecimento, da infraestrutura e das tecnologias emergentes.
Num contexto em que o Ocidente enfrenta fragmentação política e desafios internos, o modelo chinês de desenvolvimento está no centro das atenções, seja como referência, seja como contraponto.
Como disse Jeffrey Sachs durante o fórum: “A meta de crescimento de 5% é possível não apenas porque a China investe pesado em tecnologia, mas porque ela pensa estrategicamente, algo que o mundo precisa recuperar”.
*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).
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