Mateus Monteiro, da Chambers: “Estamos ampliando os rankings regionais para destacar talentos jurídicos em todo o Brasil”

Mateus Monteiro, da Chambers: “Estamos ampliando os rankings regionais para destacar talentos jurídicos em todo o Brasil”
"Lidero uma equipe de nove pesquisadores, sendo oito brasileiros e um português, dedicados exclusivamente ao Brasil. Nossa função é garantir que os rankings reflitam a realidade do mercado jurídico brasileiro"/Beatriz Dias/Chambers
Publicado em 20/03/2025 às 2:30

Luciano Teixeira – São Paulo

Advogado brasileiro radicado em Londres desde 2019, Mateus Monteiro é o atual Head of Brazil Research da Chambers and Partners, uma das mais prestigiadas publicações internacionais de rankings jurídicos. Com uma trajetória que combina direito e artes, ele desenvolveu uma visão analítica e criteriosa, essencial para liderar as pesquisas que mapeiam os escritórios de advocacia e advogados mais relevantes do Brasil. Antes de assumir essa posição, Mateus atuou nas áreas tributária e de propriedade intelectual em empresas como AES Eletropaulo e no escritório CASAA Advogados.

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Na Chambers, sua missão envolve coordenar um time dedicado a avaliar o mercado jurídico brasileiro, aplicando uma metodologia rigorosa para ranquear escritórios e profissionais de destaque. O trabalho é baseado em três pilares fundamentais: a análise dos casos mais relevantes, o retorno de clientes sobre a atuação dos advogados e a percepção dos pares dentro do setor. Esse processo garante que os rankings sejam reconhecidos pela sua imparcialidade e precisão, tornando-se uma referência para o mercado.

Uma das principais novidades desta edição é a ampliação dos rankings regionais, refletindo a diversidade e o crescimento do setor jurídico em diferentes estados brasileiros. A iniciativa visa dar mais visibilidade a escritórios e advogados que se destacam em mercados fora do eixo tradicional, acompanhando a expansão das práticas jurídicas pelo país. Além disso, a apresentação anual do ranking, que acontece nesta quinta-feira (20) em São Paulo, se consolidou como um evento aguardado pelo setor, trazendo insights sobre tendências e os principais movimentos do mercado jurídico.

Na entrevista a seguir, Mateus Monteiro compartilha sua visão sobre o papel dos rankings na advocacia, os desafios regulatórios que impactam o setor e as inovações que estão moldando o futuro da profissão. Ele também fala sobre o impacto da tecnologia, incluindo o uso de inteligência artificial, na dinâmica dos escritórios e na própria Chambers. Confira a conversa completa!

Luciano Teixeira: A Chambers & Partners é uma referência no mercado jurídico. Como vocês construíram essa reputação e qual a importância desse ranking para os advogados?

Mateus Monteiro: Acredito que o principal motivo do respeito ao nosso ranking é a independência da pesquisa. Os escritórios não pagam para participar do processo, o que garante credibilidade e transparência. Além disso, temos uma metodologia rigorosa que aplicamos há mais de 20 anos, usada de maneira uniforme em todo o mundo.

Luciano Teixeira: E como essa metodologia funciona na prática? O que vocês avaliam?

Mateus Monteiro: Nosso processo é baseado em três pilares. O primeiro é o envio, pelos escritórios, de um formulário com os 20 casos mais relevantes que atuaram nos últimos 12 meses em uma determinada área do Direito. O segundo é a avaliação dos clientes, ouvindo suas percepções sobre os serviços prestados. E o terceiro é a opinião dos próprios advogados do mercado, que comentam sobre os concorrentes e a atuação de cada escritório. A partir dessas três fontes, fazemos uma análise comparativa e definimos o ranking.

Luciano Teixeira: Você é responsável pelo mercado brasileiro na Chambers, mesmo estando baseado em Londres. Como funciona o seu trabalho e da sua equipe?

Mateus Monteiro: Exato. Lidero uma equipe de nove pesquisadores, sendo oito brasileiros e um português, dedicados exclusivamente ao Brasil. Nossa função é garantir que os rankings reflitam a realidade do mercado jurídico brasileiro. O país tem um grande diferencial em relação a outras jurisdições e, por isso, a Chambers optou por dedicar um guia exclusivamente para o Brasil, separando-o do capítulo geral da América Latina. Esse crescimento demonstra a relevância da advocacia brasileira no cenário global.

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O mercado jurídico brasileiro no contexto global

Luciano Teixeira: Durante as pesquisas, vocês acabam tendo um panorama muito amplo do mercado. O que vocês descobrem sobre o setor jurídico brasileiro?

Mateus Monteiro: O Brasil tem um mercado jurídico extremamente sofisticado. Quando analisamos os 20 principais casos de cada escritório, temos acesso ao que há de mais relevante em disputas empresariais, tributárias, regulatórias e societárias. O país é um dos mais movimentados do mundo em termos de litígios, e isso reflete na complexidade dos casos que avaliamos. O Brasil também lidera em algumas áreas, como infraestrutura e energia, o que impacta diretamente as demandas jurídicas.

Luciano Teixeira: Em relação à América Latina, qual o peso do Brasil no setor jurídico?

Mateus Monteiro: O Brasil tem um mercado jurídico extremamente robusto. Tanto que, há alguns anos, a Chambers decidiu separar o Brasil do restante da América Latina e criar um guia exclusivo para o país. Além do tamanho, a estrutura jurídica brasileira é complexa, com regulamentações específicas que exigem expertise local. Isso torna o Brasil um polo de referência na região, sendo o primeiro destino de investimentos jurídicos antes de outras jurisdições latino-americanas.

O país tem um diferencial: escritórios estrangeiros não podem atuar diretamente na legislação brasileira, o que fortalece os escritórios nacionais e os incentiva a crescerem de forma independente. Esse modelo é único e faz com que o Brasil tenha escritórios extremamente bem estruturados, que operam de forma colaborativa com escritórios estrangeiros para atender clientes internacionais.

Impactos da reforma tributária e desafios regulatórios

Luciano Teixeira: A reforma tributária foi um dos temas mais debatidos no evento da Chambers em São Paulo nesta quarta-feira (19). Qual a percepção do mercado sobre essa mudança?

Mateus Monteiro: O sistema tributário brasileiro é considerado um dos mais complexos do mundo, e a reforma tributária busca simplificá-lo. No entanto, como há um período de transição de cerca de sete anos, muitas dúvidas ainda persistem, especialmente sobre como os regimes tributários coexistirão nesse intervalo. Isso gera insegurança jurídica, o que impacta diretamente a tomada de decisão de investidores estrangeiros.

Luciano Teixeira: Além da tributação, que outros desafios regulatórios afetam o mercado?

Mateus Monteiro: A regulamentação das apostas esportivas é um tema quente. O Brasil já movimenta mais de R$ 20 bilhões nesse setor, e a nova legislação busca trazer mais segurança jurídica para as empresas e proteger os consumidores. A questão agora é como será feita essa regulamentação, quais serão os limites para publicidade, como evitar o superendividamento dos apostadores e como fiscalizar as operações. Esse é um mercado que ainda está sendo moldado e certamente continuará gerando debates no setor jurídico.

A Inteligência Artificial no setor jurídico

Luciano Teixeira: Como a Inteligência Artificial está impactando o trabalho dos escritórios de advocacia no Brasil?

Mateus Monteiro: Inteligência artificial não é mais uma tendência, é uma estratégia. Escritórios que lidam com grande volume de processos, como os especializados em contencioso de massa, já utilizam IA para automatizar tarefas repetitivas e otimizar o trabalho dos advogados. Eu visitei recentemente alguns escritórios no Nordeste e fiquei impressionado com a forma como eles estão incorporando IA para ganhar eficiência.

Luciano Teixeira: E a Chambers também está usando IA para melhorar os rankings?

Mateus Monteiro: Estamos estudando o uso da IA para aprimorar nossa análise de dados, tornando os rankings ainda mais precisos. No entanto, fazemos isso com muita parcimônia. A pesquisa jurídica exige um olhar humano criterioso para avaliar qualidade, estratégia e inovação no setor. A IA pode ajudar a coletar informações, mas a análise sempre será feita por especialistas.

Novidades da Chambers & Partners para 2025

Luciano Teixeira: Para encerrar, quais são as novidades do ranking da Chambers para este ano?

Mateus Monteiro: Estamos expandindo os rankings regionais para dar mais visibilidade a escritórios fora do eixo tradicional. Pela primeira vez, teremos tabelas dedicadas ao Nordeste, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, cobrindo áreas como imobiliário, direito do consumidor e infraestrutura. Outra novidade importante é a inclusão de um ranking específico para apostas esportivas e jogos, um setor que está em rápida transformação no Brasil.

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Luciano Teixeira: Então podemos esperar uma cobertura mais ampla da advocacia brasileira?

Mateus Monteiro: Exatamente! Nosso objetivo é mostrar que há talentos jurídicos em todo o país e que esses escritórios regionais têm muito a contribuir para o mercado. O Brasil tem um setor jurídico altamente sofisticado, e queremos garantir que todos os grandes profissionais tenham o reconhecimento que merecem.

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