Por que o acordo para o fim da guerra avança sem a Ucrânia na mesa de negociações?

Por que o acordo para o fim da guerra avança sem a Ucrânia na mesa de negociações?
Na atualidade, a decisão de Trump em “acabar” com a guerra – sem consultar a Ucrânia e os europeus – sinaliza que a “nova ordem mundial” está sendo forjada/UNICEF/UN0770704/Filippov
Publicado em 21/02/2025 às 7:55

José Renato Ferraz da Silveira*

Tempos interessantes. Quem escreve ou pensa sobre política (nacional ou internacional) deve notar que o começo da sabedoria política é a atenção aos sinais de mudança. Como num espetáculo teatral, a política não revela seus significados ao descuidado observador/analista.

E a frase do ex-governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto (1909-1996) vem de encontro com essa assertiva e faz muito sentido nos tempos atuais: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”.

Pois bem, quem diria que Rússia e Estados Unidos se reuniriam – na Arábia Saudita – para discutir o futuro da Ucrânia.Evidente que Zelensky não foi convidado. E ele aguardará – passivamente – o fim das negociações como ocorreu com o governo tcheco no acordo de Munique (1938). Em Munique, às vésperas da II Guerra Mundial, “os grandes se precaviam à custa dos pequenos, cuja sorte traçavam a bel prazer” (José Flávio Sombra Saraiva).

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Reflexões sobre Munique (1938)

Algumas reflexões sobre a História: o Acordo de Munique significou a vitória dos instrumentos da diplomacia e acomodação sobre a Realpolitik? Ou era a constatação e percepção de ingleses e franceses que negociar com a Alemanha – ao fazer concessões – poderia estabelecer um padrão europeu mais durável? Ou reconheciam que estavam bem debilitados para uma nova guerra e tinham mais a perder?

Na realidade, Munique foi um acordo de apaziguamento que procurava evitar um novo conflito entre as democracias liberais contra a Alemanha. Tentava-se evitar uma guerra “a todo custo” fazendo oferta a quem buscava o confronto.

Mal sabiam que as decisões tomadas em Munique eram decisões pré-Segunda Guerra Mundial. Britânicos e franceses avaliaram que ceder à chantagem de Hitler em relação aos Sudetos era justificável e perfeitamente viável. E que não valeria entrar em guerra pela Tchecoslováquia. Nas palavras de Neville Chamberlain: “um país distante do qual pouco sabemos”.

No entanto, para os contemporâneos de 1938, Munique não “foi um mau acordo”. Em 1938, as memórias de horror à Grande Guerra ainda eram muito vivas.

Trump “acaba” com a guerra?

Na atualidade, a decisão de Trump em “acabar” com a guerra – sem consultar a Ucrânia e os europeus – sinaliza que a “nova ordem mundial” está sendo forjada.

Como afirmou Oliver Stuenkel: “o alinhamento de Trump com Putin – ao abraçar, sem hesitação, o discurso do Kremlin em relação à Ucrânia – é um triunfo diplomático de proporções históricas para a Rússia”.Não há dúvida de que o resultado da guerra na Ucrânia moldará a segurança da Europa.

Pois bem, em Munique (1938), os “grandes” subestimaram Hitler. E o resultado foi uma Europa em escombros e dezenas de milhões de sepulturas, de um lado a outro da Europa.

Agora a situação da Ucrânia reafirma a força da Rússia e revela a intenção e o desejo secular dela ser a defensora dos povos eslavos e, eventualmente, dos cristãos ortodoxos que estão fora de suas fronteiras. O autor dissidente e ganhador do Prêmio Nobel Aleksandr Solzhenitsyn diz que Putin há muito indica o desejo de restaurar o reino cristão ortodoxo da Rus – a base da civilização russa – construindo uma União Russa, que engloba a própria Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia e os países étnicos e as áreas russas do Cazaquistão.

Por fim, a Europa guarda a memória de Munique, 1938, e “seguramente ainda alimenta a certeza que se construiu, depois de 1939 e de Pearl Harbor, a concepção de que a resistência diplomática e a ameaça de transformá-la em militar são a única maneira de conter a ambição expansionista de qualquer Estado. Mais do que ideologias” (Oliveiros Ferreira).

É esta a tragédia burlesca que está sendo encenada sob nossos olhos.

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2).

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