Renato Barbosa: “O desafio é regular big techs sem travar a inovação”

Renato Barbosa: “O desafio é regular big techs sem travar a inovação”
"Sem um ambiente regulatório que fomente o empreendedorismo e a educação tecnológica, o Brasil corre o risco de ser apenas consumidor de soluções globais, e não produtor"/Arte Freepik/Renato Barbosa
Publicado em 11/02/2025 às 7:56

Luciano Teixeira – São Paulo

A regulação das big techs, gigantes do setor tecnológico, é um tema que ganhou força no Brasil com a criação de um grupo de trabalho interministerial para discutir regras para o funcionamento de redes sociais e plataformas digitais. A comissão, que reúne representantes dos Ministérios da Justiça, Fazenda, e Secretaria de Comunicação, busca propor um arcabouço jurídico para tratar de questões como responsabilidade sobre conteúdos publicados, privacidade dos usuários e impactos econômicos gerados por essas empresas.

O movimento do governo brasileiro segue a tendência de países da União Europeia, que já implementou regulações rígidas para big techs. No entanto, especialistas apontam que o grande desafio é equilibrar a criação de regras com a manutenção de um ambiente que favoreça a inovação. A preocupação é que uma regulação excessiva possa sufocar a criatividade e a capacidade de desenvolvimento local, deixando o Brasil atrás de países como Estados Unidos e China, líderes globais em tecnologia.

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Para entender melhor os impactos desse debate, LexLegal conversou com Renato Barbosa, especialista em Inteligência Artificial e empreendedor com mais de 22 anos de experiência no mercado de tecnologia. Ex-executivo da Amazon Web Services (AWS) e do unicórnio brasileiro Ebanx, Renato liderou a criação da área de Inteligência Artificial da AWS na América Latina e hoje é cofundador da Gria, startup que combina IA e psicologia para apoiar empresas na gestão de pessoas.

Com uma carreira que inclui patentes em Inteligência Artificial, palestras em quatro continentes e o desenvolvimento do método Flow, Renato tem uma visão prática sobre os desafios da regulação. Ele aponta que o Brasil precisa aprender com os exemplos internacionais, especialmente os dos Estados Unidos e China, para evitar que a burocracia impeça o avanço tecnológico no país.

Renato também defende uma abordagem mais ousada e estratégica para que o Brasil se posicione como líder em tecnologia na América Latina. Segundo ele, é preciso incentivar a criação de startups e negócios inovadores, além de investir na formação de talentos locais. “Sem um ambiente regulatório que fomente o empreendedorismo e a educação tecnológica, o Brasil corre o risco de ser apenas consumidor de soluções globais, e não produtor”, alerta.

A discussão sobre a regulação das big techs no Brasil está apenas começando, mas já sinaliza uma encruzilhada para o futuro do país. A busca por equilíbrio entre regulação e inovação será fundamental para que o Brasil não fique à margem da revolução tecnológica global. Confira a seguir a entrevista completa com o especialista.

Luciano Teixeira: O governo criou um grupo de trabalho para discutir a regulação das big techs. Como você avalia essa iniciativa e quais os desafios jurídicos para regular essas empresas no Brasil?

Renato Barbosa: Olha, acredito que a regulação é essencial, porque ajuda a organizar sistemas complexos de maneira saudável para todos. Veja o exemplo da indústria da saúde, que é altamente regulada devido à gravidade de seus impactos, ou mesmo o trânsito, onde ninguém pode dirigir sem habilitação. No caso das big techs, a regulação deve organizar o uso de dados dos usuários e das empresas, garantindo um consumo ético e equilibrado no longo prazo.

O grande desafio, na minha opinião, é como essas empresas conseguem manter a inovação sem que a regulação seja um obstáculo. A tecnologia evolui rapidamente e tende a transformar os modelos de negócio constantemente. Então, é preciso encontrar um equilíbrio: criar regulações que permitam experimentos de menor impacto, mas que, quando escalados, estejam alinhados com as normas jurídicas. Isso é especialmente relevante em áreas como inteligência artificial, onde não dá para simplesmente travar a inovação, mas também não podemos ignorar os riscos de impactos negativos para a sociedade.

Luciano Teixeira: E como você vê o movimento das big techs, com lobbies, inclusive no Congresso Nacional, para evitar regulações aqui no Brasil?

Renato Barbosa: É um tema delicado. As big techs enfrentam mudanças naturais do mercado, que evolui muito rapidamente. Não posso opinar profundamente sobre casos específicos, mas entendo que elas sempre buscam um posicionamento estratégico para manter vantagens competitivas. O lobby faz parte disso, mas o ponto principal é como criar uma regulação sustentável que beneficie a todos, sem impedir avanços tecnológicos.

Luciano Teixeira: Do ponto de vista regulatório, o que você acha que o Brasil precisa fazer hoje para criar um ambiente equilibrado?

Renato Barbosa: Primeiro, precisamos observar o que está sendo feito fora, especialmente na Europa e nos Estados Unidos. O Brasil tem seguido a Europa em termos de regulação, como foi com a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados), mas vejo que estamos perdendo oportunidades de liderar. Países como Estados Unidos e China têm se destacado por adotarem posturas mais ousadas e pragmáticas, que fomentam inovação local e atraem investimentos.

Além disso, acho que precisamos de incentivos reais para tecnologia e inovação. Na Califórnia, por exemplo, há legislações que protegem empresas inovadoras, oferecendo segurança jurídica e fiscal. Aqui no Brasil, muitas vezes é o oposto: há tanta burocracia que desestimula quem quer empreender. Também acredito que investir em educação tecnológica é essencial. A base educacional precisa ser fortalecida para que talentos locais tenham condições de trabalhar em empresas brasileiras e não apenas para o exterior, como ocorre hoje.

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Luciano Teixeira: Você mencionou o exemplo da Califórnia. O que o Brasil pode aprender com eles?

Renato Barbosa: Lá, há incentivos fiscais e legais que estimulam a inovação. Por exemplo, se uma empresa tem problemas decorrentes de experimentos tecnológicos, o governo oferece suporte, evitando que o empreendedor arque sozinho com todos os riscos. Não tenho os detalhes na ponta da língua agora, mas sei que o modelo deles facilita muito o crescimento de negócios inovadores.

Luciano Teixeira: Você tem uma trajetória interessante na Amazon e no setor de tecnologia. Como foi sua experiência por lá e como isso moldou sua visão sobre inovação e inteligência artificial?

Renato Barbosa: Minha experiência na Amazon começou com um choque de realidade. Eu saí de uma empresa que era minha e entrei numa gigante como a AWS (Amazon Web Services), que já tinha uma estrutura enorme. O impacto foi grande, porque eu trouxe um mindset de empreendedor, de “builder”, que gosta de construir coisas do zero. Na Amazon, eu percebi como a escala de uma big tech multiplica o impacto do que você faz. Por exemplo, logo no começo, eu participei de um projeto que envolvia soluções de inteligência artificial voltadas para interação por voz, algo que na época era novidade.

Luciano Teixeira: Você mencionou que teve um “momento bandeirante”, liderando inovações em inteligência artificial. Pode dar um exemplo de algo que marcou essa época?

Renato Barbosa: Em 2016, um cliente nosso, fabricante de compressores de geladeira, veio com uma ideia que parecia absurda: ele queria uma geladeira que gritasse “gol” durante a final do Campeonato Carioca. No início, achei a ideia maluca, mas depois pensei: “E se isso fosse possível?” Voltei para casa com essa ideia e, em três dias, criei um protótipo. Era basicamente um sistema que transformava fala em texto e depois texto em fala, algo similar ao que conhecemos hoje como a Alexa. Isso foi em 2016, quando inteligência artificial ainda não era tão popular. Esse projeto chamou tanta atenção que, em poucos meses, minha agenda passou a ser dominada por reuniões sobre interações por voz. Essa experiência abriu muitas portas dentro da empresa.

Luciano Teixeira: E como isso evoluiu?

Renato Barbosa: A partir desse projeto, fui responsável por criar uma área de transformação de negócios focada em inteligência artificial na América Latina. Essa unidade nasceu como uma ideia minha, que enviei para avaliação em São Francisco, e foi aprovada globalmente. Passei três meses lá estruturando tudo. Essa área não apenas impactou a América Latina, mas também foi replicada na Europa e na Ásia. Foi um momento decisivo, porque pude escalar projetos que nasceram aqui para o mundo inteiro.

Luciano Teixeira: Depois da Amazon, você também teve experiências em fintechs, certo?

Renato Barbosa: Exatamente. Fui para uma fintech, a Ebanx, que era cliente da Amazon, mas com uma visão de executivo focado em inteligência artificial. Foi um período de aprendizado diferente, porque tive que construir uma estrutura do zero em um ambiente que não era tão preparado tecnologicamente. Criei um time de inteligência artificial robusto, focado principalmente em antifraude. Apesar de ter sido uma experiência mais curta, foi muito produtiva e o impacto do trabalho ainda é visível na empresa hoje.

Luciano Teixeira: Você mencionou em outra conversa a importância do Brasil ser produtor e não apenas consumidor de tecnologia. Como você enxerga essa questão atualmente?

Renato Barbosa: O Brasil tem um enorme potencial para ser produtor de tecnologia, mas enfrenta desafios estruturais. A cultura do “se virar” que o brasileiro tem é uma vantagem, mas faltam incentivos, seja em termos de política pública ou de apoio das empresas. Muitos dos melhores talentos acabam indo para fora, não por falta de capacidade, mas porque aqui não encontram as condições adequadas para crescer. Isso é algo que precisamos mudar.

Luciano Teixeira: Olhando para o futuro, quais são as tendências que você acredita que vão dominar o mercado nos próximos 10 a 15 anos?

Renato Barbosa: Acredito que a inteligência artificial continuará sendo o centro das transformações, mas vejo duas grandes tendências. A primeira é a integração de robôs humanoides no cotidiano, como assistentes que cozinham, limpam ou oferecem serviços especializados por assinatura. A segunda é a saúde mental. Com toda essa aceleração tecnológica, o impacto na saúde mental será um dos maiores desafios da nossa geração. As empresas que conseguirem combinar tecnologia com soluções que melhorem o bem-estar das pessoas terão um papel crucial nesse cenário.

Luciano Teixeira: E quanto ao Brasil, como você acha que podemos nos preparar melhor para esse futuro?

Renato Barbosa: Quero reforçar que a tecnologia está aqui para ser usada de forma positiva. Seja em grandes empresas ou startups, o importante é pensar em como ela pode melhorar a vida das pessoas. E, claro, cuidar da saúde mental será fundamental nesse processo.

O Brasil precisa adotar uma visão de longo prazo. Inteligência artificial e tecnologia vão mudar o futuro, e decisões de curto prazo, baseadas em ciclos políticos de 4 ou 6 anos, prejudicam o desenvolvimento do país. Se tivermos um plano estruturado, que inclua regulação, investimento e incentivos, podemos nos posicionar como uma liderança tecnológica, pelo menos na América Latina.

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Precisamos investir em educação e criar um ambiente que retenha nossos talentos. Além disso, é essencial incentivar a pesquisa local e o desenvolvimento de tecnologias que possam competir globalmente. O Brasil tem potencial, mas precisamos trabalhar para que ele seja explorado.

SÃO PAULO WEATHER