A diplomacia da agressão: Como estratégia de Trump pode isolar os EUA no cenário mundial

A diplomacia da agressão: Como estratégia de Trump pode isolar os EUA no cenário mundial
“Tarifas não causam inflação. Elas trazem sucesso (…) a ‘dor’ provocada pelas tarifas ‘valerá a pena’.” – Donald Trump/Freepik
Publicado em 07/02/2025 às 7:56

José Renato Ferraz da Silveira e Pietra Lemberck*

Nicholas Nassim Taleb nos ensina, no seu fascinante livro A Lógica do Cisne Negro, que não se deve fazer predições prejudiciais de grande escala: “Evite os grandes assuntos que podem prejudicar seu futuro: seja enganado em questões pequenas, e não nas grandes. Não dê ouvidos a previsores econômicos ou a previsores nas ciências sociais (eles são meros fornecedores de entretenimento).”

De 2021 a 2024, especialistas financeiros frequentemente projetaram cenários pessimistas ou otimistas que não se confirmaram. A taxa de erro foi de 95% no período analisado. De cada 20 quesitos analisados, o mercado só acertou uma vez, ao prever o bom desempenho da Bolsa em 2022.

Qualquer profissional da área médica com uma taxa de erro de 95% levaria seu paciente a óbito. Qualquer estudante do ensino fundamental, médio ou superior com essa mesma taxa de erro reprovaria “sem choro e sem vela”. Qualquer profissional com essa margem de falha não estaria empregado.

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O que podemos concluir é que os economistas erram em suas previsões porque a economia é um sistema complexo e dinâmico, influenciado por muitos fatores imprevisíveis. Ou seja, a imprevisibilidade impossibilita acertos maiores. É evidente que sentimos um certo desconforto ao ler sobre os fracassos gerais das predições.

Nesse caso, pensemos sobre a “bully diplomacy” de Trump. As taxações impostas pelo ex-presidente sobre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos levarão a guerras comerciais. Isso é inevitável a curto e médio prazo!

A “estratégia do morde e assopra” afeta a credibilidade e arruína a imagem de quem propõe e depois recua. Os últimos eventos reforçam essa lógica de “speak aggressively, call a bluff, carry a big stick, retreat and let’s negotiate”.

Não há dúvida de que os Estados Unidos são poderosos, mas isso não significa que forçarão os países a aceitar condições sem questionamento ou sem tentar reverter as pressões nas negociações.

Pois bem, em 2018, o professor de Relações Internacionais de Harvard, Stephen Walt, escreveu para a Foreign Policy o artigo intitulado “Bullies Don’t Win at Diplomacy” (vale a leitura!). Parece que o artigo não envelheceu!

Walt argumenta que o sucesso da política externa exige a combinação de vários instrumentos de poder nacional para produzir um resultado positivo desejado.

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Na Guerra Fria, o arquiteto da estratégia de contenção, o diplomata George Kennan, elaborou um plano bem-sucedido para afastar a Europa Ocidental e o Japão da influência soviética. Ao contrário desse êxito da contenção americana na Guerra Fria, no mundo da Guerra ao Terror, a administração George W. Bush fracassou em sua reação ao 11 de setembro, o que gerou custos enormes com ocupações, instabilidade no Oriente Médio e agravamento do problema do terrorismo.

A pergunta que fica é: a estratégia de “bully diplomacy” de Trump é/será suficiente para tornar a “América Grande Novamente”?

A resposta para essa questão depende de como se mede o sucesso da política externa. Se o objetivo é obter concessões imediatas dos adversários, a diplomacia coercitiva pode parecer eficaz a curto prazo. Entretanto, a longo prazo, essa abordagem tem efeitos colaterais significativos: resistência crescente de aliados e rivais, fragmentação de parcerias estratégicas e o enfraquecimento da confiança na liderança dos Estados Unidos. O uso excessivo de tarifas, sanções e ameaças pode levar ao isolamento econômico e diplomático, dificultando negociações futuras.

Além disso, a história mostra que políticas baseadas na força e na imprevisibilidade muitas vezes geram reações adversas. Durante a Guerra Fria, a União Soviética e os Estados Unidos evitavam confrontos diretos por meio de estratégias cuidadosamente planejadas, como a dissuasão nuclear e a diplomacia tradicional. Já a abordagem errática de Trump cria um ambiente de instabilidade, onde parceiros comerciais e aliados hesitam em fazer concessões, temendo mudanças repentinas de postura.

Outro ponto relevante é o impacto interno dessa política. Ao impor tarifas pesadas, Trump afirma proteger a indústria americana e trazer empregos de volta. No entanto, a realidade é mais complexa.

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Tarifas sobre importações aumentam os custos para consumidores e empresas, gerando pressões inflacionárias. Indústrias que dependem de insumos estrangeiros, como a automobilística e a tecnologia, enfrentam custos mais altos, tornando-se menos competitivas globalmente. Se a estratégia fosse tão bem-sucedida, por que a guerra comercial com a China não trouxe resultados definitivos para os Estados Unidos?

A longo prazo, o maior risco da “bully diplomacy” não é apenas econômico, mas geopolítico. Ao alienar aliados e empurrar países como China e Rússia para uma cooperação mais estreita, os EUA podem acabar criando um bloco rival que desafie sua hegemonia global. O que começou como uma estratégia para fortalecer a América pode, paradoxalmente, enfraquecê-la no cenário internacional. Afinal, uma superpotência não se mantém no topo apenas pelo medo que impõe, mas pelas alianças que constrói e pela previsibilidade de suas ações.

Diante disso, a grande questão permanece: Trump continuará apostando nessa estratégia? Ou será que os custos políticos, diplomáticos e econômicos forçarão uma mudança de curso?
Ladies and gentlemen, place your bets!

*José Renato Ferraz da Silveira é professor Associado IV do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSM. Doutor e Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP. Graduação em Relações Internacionais pela PUC-SP. Graduação em História pela ULBRA. Líder do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP). Editor-chefe da Revista InterAção (Qualis A-2). Pietra Lemberck é graduanda em Relações Internacionais pela UFSM. Membro do Grupo de Teoria, Arte e Política (GTAP).

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