130 homens e 3 mulheres: o que a nova Fiesp revela sobre o poder no Brasil e no mundo jurídico?

130 homens e 3 mulheres: o que a nova Fiesp revela sobre o poder no Brasil e no mundo jurídico?
"Na superfície, pode parecer que essa é uma pauta que pouco toca o setor jurídico, muito menos o de tecnologia jurídica. Mas, na realidade, essa foto da Fiesp é apenas um reflexo ampliado do que ainda se repete — com roupagens mais sutis — nos conselhos, bancadas, reuniões e negociações do nosso ecossistema também"/Reprodução
Publicado em 08/05/2025 às 10:38

Priscila Spadinger*

Nessa semana, uma manchete me fez parar. A nova direção da Fiesp 2025 — a maior federação da indústria brasileira — será composta por 130 homens e apenas 3 mulheres. Em pleno 2025, esse dado escancara um abismo que muitos insistem em ignorar: o da sub-representação feminina nos espaços de decisão mais estratégicos do país.

Na superfície, pode parecer que essa é uma pauta que pouco toca o setor jurídico, muito menos o de tecnologia jurídica. Mas, na realidade, essa foto da Fiesp é apenas um reflexo ampliado do que ainda se repete — com roupagens mais sutis — nos conselhos, bancadas, reuniões e negociações do nosso ecossistema também.

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Se os maiores decisores nas indústrias federadas são homens, ainda em 2025, isso significa que, ao longo da cadeia de inovação, investimento e parcerias, é majoritariamente com eles que sentaremos à mesa. E em muitas ocasiões, nem sentamos.

Happy Hours, rodadas de negócios, cafés estratégicos e confraternizações que acontecem depois das 18h — quando muitas mulheres já assumem o segundo ou terceiro turno de trabalho nos seus lares — seguem sendo os bastidores reais onde os deals se desenham. A exclusão não é formal, mas ela é prática, contínua e estrutural.

E mesmo assim, nós seguimos avançando.

De acordo com o Sebrae, as mulheres já representam 52% das pessoas que abriram CNPJs de pequenas e médias empresas no Brasil. Segundo o IBGE, em 2023, pela primeira vez na história, os lares chefiados por mulheres ultrapassaram os liderados por homens, totalizando mais de 49% dos domicílios brasileiros. E na área de consumo, mulheres já influenciam 82% das marcas que entram nos lares — isso sem falar na liderança no comércio eletrônico em setores como moda, cosméticos e alimentos.

Mas o dado que considero mais simbólico para nós do Direito é outro: nas faculdades de Direito do Brasil — país que já é o líder mundial em número de cursos jurídicos — as mulheres são franca maioria. Segundo o Censo da Educação Superior mais recente, em algumas instituições, elas já representam até 70% dos alunos matriculados em cursos jurídicos.

Ou seja: a base da pirâmide já é feminina. São as mulheres que estão moldando o futuro do Direito. O que falta é que o topo — o Judiciário, os escritórios, os conselhos, os fundos de investimento, os fóruns e o ecossistema de inovação — se reconfigure para recebê-las, valorizá-las e ouvi-las.

Esse é um desafio central para as legaltechs. Afinal, se queremos usar tecnologia para repensar o Direito, precisamos garantir que essa reconstrução esteja sendo feita com todos os olhares possíveis — e não apenas com a visão historicamente dominante.

Na Aleve, onde atuo como CEO, sempre priorizei a contratação ativa de mulheres. A diversidade, para nós, não é um pilar de marketing. É estratégia de inovação. Nossa metodologia só funciona porque é plural. E nossa construção de rede só se sustenta porque se abre a todas as vozes. Homens e mulheres. Pessoas brancas, pretas, LGBTQIAPN+, mães solos, jovens e seniores.

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Quando olho para uma manchete como a da Fiesp, não sinto apenas indignação. Sinto um chamado. Porque se ainda somos 3 entre 130, sejamos as 3 que puxam outras 300.

E não falo só das 300 mulheres que irão liderar legaltechs nos próximos anos. Falo também das 300 ideias que surgirão quando a escuta for genuinamente diversa. Dos 300 problemas reais do sistema jurídico que serão resolvidos quando incluirmos a perspectiva feminina desde o design da solução. Das 300 jovens estudantes que hoje estão entrando em cursos de Direito e que, por nos verem em cargos de liderança, vão acreditar que podem mais.

No fim das contas, essa não é apenas uma discussão sobre gênero. É sobre progresso. É sobre futuro. É sobre eficiência real. Porque inovação sem diversidade é só repetição com tecnologia.

*Priscila Spadinger é CEO da Aleve LegalTech Ventures S/A, advogada investidora da CriaAI.com.br e colunista do Portal Lex Legal Brasil. É especialista nas interseções entre inovação, tecnologia e Direito.

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